Prontos para a Partida: Indústria de Produção de Entretenimento de Macau

02 2016 | 13a edição
Texto/Jason Leong

Com o crescimento da indústria do entretenimento em Macau, produtoras estão a aparecer por toda a parte e a acompanhar este fenómeno. Algumas estão bem estabelecidas e já produziram excelentes programas ou curtas-metragens. É esta uma indústria onde é fácil entrar? E é fácil conseguir mais audiências para estas produções? A Pride Entertainment e a Manner Production são duas dessas produtoras de Macau com modelos de negócio diferentes. Neste número, partilham connosco a sua visão sobre a indústria.


Manner Production: Pioneiros das Curtas-Metragens online em Macau 


Pride Entertainment: Uma Agência de Espectáculos Abrangente

 

A Pride Entertainment Productions Co. Ltd foi fundada por Hin U e a sua equipa em 2013. No começo, a produção de vídeos era o único negócio da empresa. Mas agora tornou-se na mais abrangente agência de espectáculos de Macau. As suas principais actividades incluem o lançamento de artistas, promoção, gestão de eventos, design gráfico, etc. “Temos trabalhado no duro durante os últimos dois anos. Eramos demasiado ingénuos quando começámos este negócio, mas felizmente agora tudo está no bom caminho. O nosso dinheiro é ganho com muito suor”, diz U.

 

U estudou Direcção de Fotografia na Austrália e regressou a Macau em 2012, depois de se ter licenciado, tendo começado a trabalhar como produtor freelancer. Naquela altura havia escassez de profissionais de vídeo e produção em Macau, e por um dos trabalhos que conseguiu – a produção de um programa educativo para a TV – U conseguiu fazer MOP 100.000,00. Tendo começado na altura certa, U conseguiu financiamento para a sua empresa. No começo, achou que poderia simplesmente transferir os seus clientes para a empresa que acabara de criar, mas estava enganado.

 

“Macau é um lugar especial: não há talento suficiente; o espaço é limitado e o mercado é pequeno. Quando trabalhava como freelancer, não pensava nisto. Mas, uma vez criada a empresa, todos estes problemas se tornaram visíveis. As pessoas em Macau não estão interessadas em produções de entretenimento locais. A falta de mão-de-obra e o desinteresse dos meios de comunicação são algumas das razões pelas quais a indústria do entretenimento está tão estagnada em Macau”, diz U.

 

Lançar Artistas Locais

 

Para ultrapassar estas dificuldades, U lançou um programa de gestão de carreiras artísticas assim que começou o negócio.

 

“Há muitas pessoas em Macau que adoram cantar, novos álbuns são lançados todos os anos. Mas é uma pena que não muitas dessas pessoas queiram tornar-se profissionais. Além disso, as empresas de Macau não pensam verdadeiramente em usar artistas locais para promover os seus produtos. Tudo isto impossibilitou o crescimento da indústria. No entanto, as pessoas de Macau são também muito interessantes. Elas julgam que, se um artista de Macau consegue reconhecimento no exterior, como Siu Fay e Vivian Chan, esse artista passa a ser visto como uma estrela também em Macau. É por isso que estamos agora a negociar com agentes em Hong Kong, na esperança de que os nossos artistas possam ter mais visibilidade fora de Macau.”

 

U conta que a Pride Entertainment está neste momento a colaborar com uma empresa de Hong Kong. A ideia é contratar um artista de Macau como embaixador para promover uma marca de Hong Kong. Isto ajuda a lançar artistas multifacetados e faz com que mais pessoas de Macau passem a conhecê-los. Além disso, ao conseguirem este tipo de acordos, ganham também maior poder negocial no mercado.

 

A Pride Entertainment assinou recentemente contrato com Lo Hip Meng, um estudante e jogador de basquetebol local, na esperança de atrair as audiências mais jovens para este mercado, bem como de desenvolver e diversificar a sua carteira de artistas. “O desporto e as artes estão na mesma categoria no que toca à indústria do entretenimento, e podem ser planificados em conjunto. Em Hong Kong e Taiwan, não é invulgar que muitos estudantes-atletas entrem no mundo do espectáculo. Lo está agora a estudar Educação Física e Desporto no Instituto Politécnico de Macau. Joga nos campeonatos de basquetebol de Macau e é um dos poucos atletas locais que tem fãs. Tudo isto vai de acordo com o nosso plano de alcançar os mercados mais jovens.”

 

U refere que a maior parte das marcas que vemos em Macau hoje em dia são geridas por distribuidores de Hong Kong, e naturalmente os artistas de Hong Kong são os preferidos no que toca a promover produtos como ténis ou roupa de desporto. Não há um marketing directo para o público de Macau. Posto isto, U acredita que, quando Lo tiver uma carreira sólida no mundo do espectáculo, será possível negociar com distribuidores de Hong Kong para que contratem Lo como embaixador das suas marcas.

 

Construir uma Boa Plataforma de Media

 

No começo, U ganhou notoriedade com o “AECM 360”, um programa noticioso de TV online fundado pela Associação Geral de Estudantes Chong Wa de Macau. O programa tornou-se popular entre os jovens de Macau devido à abordagem fresca e aos conteúdos mais leves, pensados para estudantes. O sucesso do programa fez com que U percebesse a importância dos meios de comunicação online.

 

“Uma grande diferença entre Macau e outros lugares é o facto de Macau não ter uma boa plataforma de media para fazer circular a informação. Por melhor que um artista seja, não há canais para que possa ter mais exposição. Aqueles que controlam os meios de comunicação, controlam o mundo. Foi por isso que comecei imediatamente a preparar uma plataforma de media online. Já conseguimos atrair alguma audiência mais jovem e isso prova que tomámos a decisão correcta”, conta.

 

Apesar de os meios de comunicação online se terem tornado mais populares e de a Pride Entertainment estar a fazer esse caminho, U nunca negligenciou o poder dos media tradicionais.

 

“As pessoas em Macau pensam que se um artista não tem exposição em meios tradicionais como a TV e os jornais, esse artista não é de fácil acesso e por isso é visto como estando fora do ‘mainstream’ e como alguém que não encara a sua carreira com seriedade. As plataformas online são ferramentas muito boas para promover artistas. Ajudam-nos a captar a atenção dos jovens e dos utilizadores habituais. O passo seguinte é conseguir romper barreiras e assegurar alguma exposição nos meios de comunicação mais ‘mainstream’. Nesse aspecto, os meios de comunicação tradicional são a única saída”. Isto explica por que motivo a Pride Entertainment também investe em publicidade ao ar livre, anúncios em transportes públicos e publicidade no jornal Diário de Macau. Esta é a única forma de assegurar que o público está a par das novidades e dos destaques da empresa.

 

Em Busca de Talentos Globais

 

U frisa que Macau tem talentos, seja no palco ou nos bastidores. Os profissionais locais são tão bons como os de Hong Kong ou de outros lugares. No entanto, ao contrário desses outros locais onde grandes espectáculos não são incomuns e existem várias oportunidades de intercâmbio internacional, os profissionais de Macau não têm muitas oportunidades para aprimorar as suas capacidades e, portanto, os seus horizontes não podem ser alargados. Além disso, a função pública e a indústria do jogo são as carreiras preferenciais em Macau, e é difícil persuadir pessoas talentosas a fazerem uma carreira na indústria do entretenimento. Para resolver este problema, U decidiu fazer uma busca de talentos à escala global.

 

“Contratámos designers em Taiwan. Os custos de contratar jovens licenciados em Macau são iguais aos de ter um produtor sénior de Taiwan. Também gostaríamos de contratar locais, mas a realidade é que não podemos suportar esses custos.”

 

U refere igualmente que o acesso às novas tecnologias significa que qualquer pessoa pode tirar fotografias com a câmara do seu telemóvel e que os valores de referência do trabalho fotográfico desceram por causa disso. O lado positivo deste fenómeno é ser hoje mais fácil conseguir contratar fotógrafos para trabalhos urgentes, o lado negativo está no facto de ser difícil lançar verdadeiros talentos.

 

“As pessoas mais jovens preferem ser freelancer a trabalhar por conta de outrem. Sim, há uma grande liberdade em gerirmos o nosso próprio negócio, mas perdem-se oportunidades de subir na pirâmide empresarial ou de aprender com profissionais muito experientes. Também se perde a possibilidade de trabalhar como equipa. Tem-se a capacidade para gerir pequenos projectos, mas quando se trata de grandes produções, está-se fora da corrida. O mercado está cada vez mais competitivo. Mesmo com a indústria a começar a crescer, não há assim tantas oportunidades para quem trabalha como freelancer como havia quando eu comecei a trabalhar nesta indústria.” A intenção de U não passa por convencer os freelancer a juntarem-se a uma empresa, mas por dizer às pessoas que pensam em entrar nesta indústria que pensem duas vezes antes de tomar uma decisão. Cada pessoa precisa de perceber quais são os seus pontos fortes e que tipo de carreira quer ter.

 

Olhar para o Futuro

 

A Pride Entertainment teve um bom desempenho durante os dois anos correspondentes ao período de investimento e conseguiu clientes estáveis, como a MGM. A produtora espera atingir o equilíbrio de contas durante este ano. Enquanto o desenvolvimento do negócio em Macau não parece ser um problema para a empresa, U acredita no entanto que este é um ano de verdadeiras mudanças. “Macau é o nosso ponto de partida. Precisamos de construir a nossa reputação aqui primeiro. Uma vez a marca bem estabelecida no mercado de Macau, começaremos a trabalhar internacionalmente.”

 

U considera haver margem em Macau para desenvolver o negócio, mas o tamanho do território e a sua população são limitados. Cooperações internacionais são necessárias para um verdadeiro crescimento do negócio. O principal foco empresarial da Pride Entertainment será promover os seus artistas nos mercados exteriores. U está também a planear investir em curtas-metragens e em convidar artistas estrangeiros para actuar em Macau. Ao fazê-lo, dará mais escolhas de entretenimento ao público local, ao mesmo tempo que artistas locais terão mais oportunidades de cooperar com equipas internacionais.

 

U nota que que a indústria do entretenimento em Macau também reconhece esta necessidade como um todo, e percebe que é impossível competir com as regiões vizinhas se cada agente apenas trabalhar por si próprio. Por isso, a Associação dos Artistas de Macau foi fundada no ano passado e sete produtoras locais lançaram em conjunto o festival Sound in Macau. O objectivo passa por dar a conhecer Macau ao público no exterior através deste evento. Esta cooperação também permitiu às empresas ter uma maior exposição. É uma situação benéfica para todos.

 

“Apesar de os lucros do jogo em Macau continuarem a cair, o sector comercial em geral não tem sido afectado. As oportunidades de negócio estão aí, mesmo em tempos difíceis. Acredito que há espaço para o crescimento da indústria do entretenimento em Macau”, conclui U.